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Ronaldo Meirelles — Advogado
Direito Criminal

Fiança na delegacia: quando o delegado pode arbitrar

Quando o delegado pode arbitrar fiança no flagrante, como o valor é calculado pelo art. 325 do CPP e o que fazer quando a quantia é alta demais.

Por Ronaldo Meirelles 9 min de leitura

A cena se repete em toda delegacia: alguém é preso em flagrante à noite, a família chega desorientada e a primeira pergunta é sempre a mesma — dá para pagar fiança e sair hoje? A resposta depende de um artigo específico do Código de Processo Penal e de dois fatores que quase ninguém conhece: a pena máxima do crime imputado e a situação econômica de quem foi preso.

Este guia explica quando o delegado pode arbitrar fiança sem passar pelo juiz, como o valor é calculado, o que fazer quando a quantia é alta demais para a realidade da família e o que a fiança obriga depois da soltura. O conteúdo é informativo — cada caso concreto exige análise individualizada.

O que a fiança é, e o que ela não é

A fiança é uma garantia patrimonial que assegura a liberdade do preso durante o processo, vinculando-o ao cumprimento de deveres processuais. Ela é uma das medidas cautelares diversas da prisão, e não uma compra de liberdade.

A base está na Constituição Federal, art. 5º, inciso LXVI: ninguém será levado à prisão ou nela mantido quando a lei admitir a liberdade provisória, com ou sem fiança. A prisão antes da condenação é a exceção, e a fiança é um dos mecanismos que devolvem a regra ao seu lugar.

Quem paga fiança não fica “livre do processo”. O afiançado assume obrigações previstas nos arts. 327 e 328 do Código de Processo Penal: comparecer a todos os atos processuais para os quais for intimado, não mudar de residência sem autorização e não se ausentar por mais de oito dias sem comunicar onde pode ser encontrado. Descumprir isso tem consequências patrimoniais e prisionais.

Quando o delegado pode arbitrar a fiança

O art. 322 do CPP, na redação dada pela Lei 12.403/2011, traz o critério objetivo: a autoridade policial somente pode conceder fiança nos casos de infração cuja pena privativa de liberdade máxima não seja superior a quatro anos.

Não importa se a pena é de reclusão ou de detenção. O que importa é o teto abstrato do tipo penal imputado no auto de prisão em flagrante, considerando qualificadoras e causas de aumento que já apareçam na capitulação.

Nos demais casos — pena máxima acima de quatro anos —, a fiança precisa ser requerida ao juiz, que decide em até 48 horas, conforme o parágrafo único do art. 322. Na prática atual, esse pedido costuma ser resolvido na própria audiência de custódia, que ocorre em até 24 horas após a prisão.

SituaçãoQuem arbitraPrazo
Pena máxima até 4 anosDelegado de polícia, na própria delegaciaImediato, na lavratura do flagrante
Pena máxima acima de 4 anosJuiz, mediante requerimentoAté 48 horas (art. 322, parágrafo único)
Fiança negada ou considerada excessivaJuiz, de ofício ou a pedido da defesaNa audiência de custódia ou por petição

O arbitramento pelo delegado é um dever, não uma cortesia: presentes os requisitos legais, não há discricionariedade para simplesmente deixar de arbitrar. É por isso que a presença da defesa desde a delegacia importa — ela é quem requer o arbitramento e registra a recusa, quando ocorre.

Quando a fiança não cabe

Dois artigos fecham a porta. O art. 323 do CPP veda a fiança nos crimes de racismo, nos crimes de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes, terrorismo e nos definidos como hediondos, e nos crimes cometidos por grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.

O art. 324 acrescenta outras hipóteses: quem já quebrou fiança no mesmo processo ou infringiu as obrigações dos arts. 327 e 328; os casos de prisão civil ou militar; e — a hipótese mais frequente na prática — quando estiverem presentes os motivos que autorizam a prisão preventiva do art. 312 do CPP.

Esse último inciso merece atenção. Ele não autoriza recusa genérica. A autoridade precisa apontar, em concreto, garantia da ordem pública, conveniência da instrução ou risco à aplicação da lei penal. Fundamentação vazia é justamente o ponto que a defesa ataca, tanto na custódia quanto por habeas corpus.

Importa distinguir: crime inafiançável não significa prisão obrigatória. Mesmo sem fiança, o juiz pode conceder liberdade provisória sem fiança, com ou sem medidas cautelares do art. 319 do CPP.

Como o valor é calculado

O art. 325 do CPP fixa faixas ancoradas no salário mínimo, hoje de R$ 1.621,00, conforme o Decreto 12.797/2025:

Pena máxima do crimeFaixa legalEquivalente em 2026
Até 4 anosDe 1 a 100 salários mínimosDe R$ 1.621,00 a R$ 162.100,00
Acima de 4 anosDe 10 a 200 salários mínimosDe R$ 16.210,00 a R$ 324.200,00

Dentro dessas faixas, o art. 326 determina os critérios: natureza da infração, condições pessoais de fortuna e vida pregressa do acusado, circunstâncias indicativas de periculosidade e a importância provável das custas do processo.

O §1º do art. 325 é o dispositivo mais útil para quem não tem como pagar. Se a situação econômica do preso recomendar, a fiança pode ser dispensada na forma do art. 350, reduzida em até dois terços ou — na direção oposta — aumentada em até mil vezes.

Na prática, um valor arbitrado sem consideração da renda real transforma a fiança em prisão por pobreza. Como registra a nota técnica do Ministério Público do Piauí sobre fianças arbitradas por autoridade policial, o arbitramento exige fundamentação e proporcionalidade, e não a aplicação automática de um valor de tabela.

Fiança alta demais: o que fazer

O fato de o preso permanecer recolhido sem pagar é, em si, um indicativo de que o valor é incompatível com suas possibilidades. Esse argumento sustenta três caminhos.

O primeiro é o pedido de redução ao próprio delegado, ainda na fase do flagrante, instruído com comprovantes de renda, carteira de trabalho, contas domésticas e declaração de dependentes. O segundo é levar a questão à audiência de custódia, onde o juiz reavalia integralmente a prisão. O terceiro é a via do habeas corpus, quando a fiança excessiva funciona como constrangimento ilegal.

A defesa também pode requerer a aplicação do art. 350: liberdade provisória sem fiança, com as mesmas obrigações dos arts. 327 e 328, para quem comprovadamente não pode pagar. É a solução legal para o preso hipossuficiente, e não um favor.

Quando o flagrante em si tem vício — falta de comunicação, ausência de nota de culpa, abordagem irregular —, a discussão muda de natureza e passa a ser de relaxamento da prisão, que independe de qualquer pagamento.

Depois de paga: obrigações, quebra e devolução

O dinheiro da fiança não é uma taxa perdida. Se o acusado é absolvido ou a punibilidade é extinta, o valor é restituído integralmente, sem desconto, conforme o art. 337 do CPP. Havendo condenação, o art. 336 determina que a quantia responda pelas custas, pela indenização do dano, pela prestação pecuniária e pela multa.

O quebramento da fiança ocorre nas hipóteses do art. 341: deixar de comparecer a ato do processo sem motivo justo, mudar de residência sem prévia autorização, ausentar-se por mais de oito dias sem comunicar, descumprir medida cautelar imposta em conjunto ou praticar nova infração penal dolosa. O efeito, previsto no art. 343, é a perda de metade do valor e a possibilidade de imposição de outras cautelares ou de prisão preventiva.

Há ainda a perda total, do art. 344, quando o condenado não se apresenta para o início do cumprimento da pena definitivamente imposta.

Por isso, a orientação sobre as obrigações do afiançado é parte do trabalho da defesa desde a soltura. Muita quebra de fiança acontece por desinformação — uma mudança de endereço não comunicada, uma intimação não atendida — e não por má-fé.

O primeiro dia é o que mais importa

Entre a prisão e a soltura existe uma janela curta em que quase tudo se decide. Conhecer os direitos do preso em flagrante e as etapas das primeiras 24 horas é o que permite requerer o arbitramento no momento certo, com os documentos certos.

Em crimes de trânsito isso é especialmente visível. Na prisão em flagrante por embriaguez ao volante, a pena máxima de três anos autoriza o arbitramento pelo próprio delegado, e o desfecho da noite costuma depender apenas de alguém requerer a fiança e discutir seu valor. Já quando há vítima fatal, a capitulação muda: o homicídio culposo na direção de veículo automotor tem pena máxima de quatro anos no caput — ainda dentro do limite do delegado —, mas de oito anos na forma qualificada pela embriaguez, o que transfere a decisão ao juiz.

Perguntas frequentes

Quem define o valor da fiança na delegacia?

O delegado de polícia, dentro das faixas do art. 325 do CPP e observando os critérios do art. 326: natureza da infração, condições econômicas e vida pregressa do preso, circunstâncias de periculosidade e custas prováveis do processo. A decisão deve ser fundamentada e pode ser revista pelo juiz.

Qual o valor mínimo e máximo da fiança em 2026?

Para crimes com pena máxima de até quatro anos, de 1 a 100 salários mínimos — de R$ 1.621,00 a R$ 162.100,00 com o salário mínimo vigente. Para crimes com pena máxima superior a quatro anos, de 10 a 200 salários mínimos. Esses limites podem ser reduzidos em até dois terços ou aumentados em até mil vezes.

E se a família não tiver dinheiro para pagar?

O art. 325, §1º, do CPP permite reduzir a fiança em até dois terços ou dispensá-la, na forma do art. 350, quando a situação econômica recomendar. O pedido deve ser instruído com prova de renda e de despesas. A permanência do preso por falta de pagamento é, por si só, indício de que o valor é excessivo.

Pagar fiança significa admitir culpa?

Não. A fiança é garantia processual, não confissão. Ela apenas assegura a liberdade durante o processo e vincula o afiançado às obrigações dos arts. 327 e 328 do CPP. A discussão sobre autoria e materialidade continua integralmente no curso da ação penal.

Como a fiança é devolvida?

Se houver absolvição ou extinção da punibilidade, o valor é restituído integralmente, sem desconto, conforme o art. 337 do CPP. Em caso de condenação, o art. 336 determina que a quantia seja usada para custas, indenização do dano, prestação pecuniária e multa, restituindo-se o saldo, se houver.

O delegado pode se recusar a arbitrar fiança?

Somente nas hipóteses legais dos arts. 323 e 324 do CPP, entre elas a presença concreta dos motivos da prisão preventiva. A recusa exige fundamentação específica, e a defesa pode impugná-la na audiência de custódia ou por habeas corpus, quando o fundamento apresentado for genérico.

Alguém foi preso em flagrante em Cuiabá?

Atuo na defesa criminal em Cuiabá e Várzea Grande, com acompanhamento desde a lavratura do flagrante — arbitramento de fiança, audiência de custódia e discussão da legalidade da prisão (OAB/MT 20.625/O). Para entender as etapas do caso, veja como funciona o atendimento em prisão em flagrante ou fale comigo pela página de contato.

Este conteúdo é informativo e não constitui consulta ou parecer jurídico. Cada caso tem particularidades que exigem análise individualizada. Para sua situação específica, busque orientação profissional.

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